Prefácio


"Do Ato ao Gesto Gráfico"


Na área educacional, é uma constante, a grande expectativa dos professores e pais, relacionada ao período preparatório para a alfabetização, no qual o gesto gráfico é considerado um pré-requisito para a escrita. A evolução deste processo, apresenta um rítmo próprio, característico de cada fase etária e dos processos de maturação; diversos fatores exercem influência, dentre eles, os estímulos ambientais e pedagógicos. Não é novidade, o emprego de técnicas específicas que possam facilitar a aquisição do ato gráfico, bastante conhecidas, mas não raras vezes, o objetivo não é alcançado, por serem procedimentos restritos à motricidade fina, com a simples utilização do lápis e do papel, sem a percepção e o envolvimento global do corpo.

O corpo e o movimento constituem alicerces para o desenvolvimento da criança, abrangendo as áreas psicomotoras, cognitivas, emocionais e sociais, as quais, interferem de modo incontestável nos processos de aprendizagem. O corpo é instrumento da ação e instrumento do conhecimento.

O que este livro nos apresenta, são propostas de atividades, atravessadas por um outro olhar, utilizando estímulos indispensáveis que valorizam o corpo, a ação, o gesto e o movimento, sempre de uma forma lúdica. Rompendo com os padrões tradicionais, são apresentadas as "sugestões", como Marília enuncia de um modo despretensioso, focalizando atividades corporais e cinestésicas. São relevados os grandes eixos da teoria do conhecimento e da teoria psicomotora: esquema corporal, coordenações - dinâmica, viso-motora e motricidade fina - orientação e estruturação espacial e temporal, rítmo e lateralidade; a percepção visual e auditiva reforça esta tecelagem, consolidando o período sensório-motor e consolidando a consciência corporal.

A cena educativa se desenrola, com a confecção de um grande piso quadriculado que se converte em palco para as atividades corporais, com a passagem progressiva para a representação no papel. São estimulados os traçados de retas e curvas, a orientação espacial e o rítmo, sempre precedidos do apoio cinestésico. O bastão, a bola, o chocalho, o tambor, a massa de modelar, a cola colorida e os pilots, são alguns dos materiais utilizados, a partir de cada situação particularizada.

Dentre os vários aspectos que singularizam este trabalho, ressaltamos a não diretividade ao sintoma: as dificuldades inerentes ao início do grafismo, são desdramatizadas pela via lúdica, e a sensação, muito bem colocada por Marília,é de "uma grande brincadeira". A valorização das atividades lúdicas e da importância do brincar, reforçam a visão da autora, sedimentada numa gama de conhecimentos, tendo como referencial, Piaget, Winnicott e Le Boulch, dentre outros. Para Winnicott "a criança adquire conhecimento brincando. A brincadeira é uma parcela importante na sua vida." Para a criança, o brincar é uma coisa séria, e é por meio de suas ações e pelas suas experiências que ela assimila e aprende.
Nas atividades sugeridas não existem imposições, e é incentivado o prazer de participar de um jogo divertido; o desafio, a competição e até situações inusitadas, como a inversão de papéis, professor e aluno, colaboram para um clima, que se distancia da formalidade e do adestramento. O percurso, da progressão lúdica à autonomia gestual e gráfica, respeita a individualidade e o tempo próprio de cada criança. Os aspectos relacionais e sociais são incentivados paralelamente.

As idéias apresentadas neste trabalho, é a síntese de observações, experiência e prática nas áreas pedagógica, psicopedagógica e psicomotora, permitindo a Marília por sua sólida formação profissional e prática de três décadas, fazer esta conexão. Durante vários anos, acompanhei o seu itinerário, desde o Curso de Especialização em Terapia Psicomotora e dos grupos de Supervisão, e como colega, trabalhando juntas, fui testemunha do seu investimento e desempenho educacional e clínico, e de sua dedicação à carreira que abraçou. O projeto desta publicação, remonta há longa data e vinha sendo sempre protelado; finalmente, aconteceu a passagem do "desejo ao ato", e a consolidação desta edição.

"Do ato ao gesto gráfico", é um livro, cujo objetivo principal é a demonstração da prática, reforçando a importância da atividade lúdica, do corpo e do movimento, associados aos processos de evolução do grafismo ou das alterações específicas do ato gráfico. A sua aplicação, não é limitada à criança, mas estende-se ao adolescente e ao adulto, com as devidas adaptações, e o trabalho pode ser realizado individualmente ou em grupo. Acreditamos que esta abordagem, seja de grande utilidade, na educação ou na clínica, caracterizada, sobretudo por uma visão inovadora.

Regina Morizot



*Regina Morizot é psicanalista, psicomotricista, terapeuta de família e casal.
Formou-se, também, em fonoaudiologia e pedagogia. É sócia titular com especialização, e, uma das fundadoras da SBP - Sociedade Brasileira de Psicomotricidade e, hoje, ocupa um dos lugares de conselheira e faz parte da Comissão Científica desta Sociedade. Há mais de 20 anos forma turmas de profissionais em Terapia Psicomotora.
Atualmente atende em seu consultório, no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, dando atendimento clínico e supervisão em psicanálise, psicomotricidade e terapia de família e casal.
Contato: (21) 2239-2596


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